Quinta-feira, Outubro 22, 2009

 

Tom de Comunicação

Ele é serpenteado e duro, entra e saí de uma forma subtil como sereias nos auriculares de Ulisses. Salta alegre com a resposta da outra pessoa, fomentando sempre o seu ínfimo desejo. Qual desejo? Uhm! o desejo de penetrar cada vez mais fundo, de modo conveniente e puro, sem protecções, tal qual virgem no seu primeiro devaneio sexual.
Não poupa tempo vai directo que nem um míssil ao seu target. Assim, logo que posto em prática procura com avidez aquele buraco, ou melhor dizendo aqueles buracos, tendo a mais pormenorizada exactidão, para então penetrar, penetrar, penetrar até à sua saturação, que o obriga a mudar de posição, na ânsia de atingir o clímax tão desejado. Clímax esse muitas vezes gorado, pela sua incapacidade de ajustamento ou potência.
No entanto, não é deveras comprido, mas é por algumas mãos trabalhado. Para quê? para assim garantir sua precisão e fulgor no acto fundamental.
Intenção, tem sempre, ardor e pujança também, não perdendo nunca uma oportunidade para a maquiavélica penetração. Reveste-se de uma máscara celestial, na qual oculta todo o fel de lucífer ansioso, e treina-se, treina-se, não se ficando pela primeira, segunda, terceira ou quarta, procurando crescentemente ter mais alcance, para ser melhor sucedido da próxima vez.
Ele é um excelente performer, convincente e amável, não se poupando algumas vezes a rodeios para atingir seu fim penetrante. A tal se alia sua vontade insaciável de mais e mais, que o faz subir e descer com intensidades diferentes, para garantir sua eximia vitória, lucrada com recompensas várias.
Não sei porque sempre agiu como age, com tal apetite voraz e intencional, mas ele é assim vazio de humildade e de consciência. No entanto, não se pode censurá-lo muito menos comentá-lo, dada a sua importância vital, para assegurar o dia de amanhã.

Domingo, Outubro 18, 2009

 

A Caneta

Era Quarta-feira, duas da tarde, andava eu repousante no Cascaishopping, vagueando de loja em loja para ocupar o tempo. Não via nada que me interessasse, no entanto continuava a busca. Entrei na Papelaria Fernandes. Senti que algo ali me chamava, e num repentino movimento vi-a, bela, vestida de preto. Parecia magia, os meus olhos colavam-se, sem se querer desviar. Porquê? Já tinha entrado ali vezes sem conta, porque nunca a vi? Aconteceu-me como nas histórias de amor, amor à primeira vista, puro e acidental. Procurei aproximar-me, para a ver melhor. Ela permaneceu indiferente à minha presença, demonstrando uma frieza implacável. Fiquei desalentado mas senti ainda maior necessidade de a conhecer. Aquela dificuldade reflectia o meu tipo ideal de companheira: inexpugnável visualmente, fogosa mas ao mesmo tempo com traços de fragilidade. Não tive coragem para mais e voltei para casa. Ela não saia do meu pensamento. Pensei: “cobarde de merda”. Já não me lembrava desta sensação e entendi. Desde que aquele “cabrão” me roubou a outra por quem senti o mesmo deixei de me interessar. Atroz animal, que desconfio ainda hoje ter andado a “namorá-la” enquanto era minha. Morrerás no inferno, maldito. Voltei no outro dia aquele que parecia agora o meu novo Éden. Estava lá, sorte. Respirei fundo, pus o meu melhor sorriso e convidei-a a sair. Aceitou. Rejubilei-me. Como era sexta-feira, falei-lhe em irmos dançar. A “pista” foi curta para nós, tal como a noite. Seguiram-se muitas mais. Nunca mais nos separámos, mas muita coisa mudou. Eu já não sou o que era. Ela perdeu aquele brilho. Morre por dentro, na angústia de não poder mudar seu rumo e eu desmotivado não a ajudo, talvez esperando sua morte, no desejo de encontrar outra paixão… 
(escrito algures num passado longínquo)

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

 

A Imperial

Estava ali sozinho naquela mesa do bar, quando deparei com ela sentada na mesa ao lado. Arrisquei a me aproximar, mas milhentos olhos me perseguiram e inibiram de finalizar tal acto. Ela permanecia estática e irresistível, ávida por ser abordada. Alguém tentou a conquista mas a menos de um metro parou. PORQUÊ? Talvez o seu tamanho iludi-se ou o seu aspecto franzido o tenha desmotivado, não sei..., mas algo estranho se passava. Talvez aquela figura ali parada e só, não fosse comum de ver perante um conjunto de jovens “machos” no auge da idade. Contudo ali continuava sem se mover, atraindo todos aqueles “Casanovas” desvairados, face a tal inaceitável solidão, que lhes corrompia a alma.
Aos poucos e poucos a fui entendendo e percebi que tinha sido abandonada, privada, enganada por alguém que gostou de viver com ela momentos efémeros de prazer e que a deixou à sorte de todos aqueles ávidos da açambarcar.
O seu brilho já não era o mesmo, era já um resplandecer decadente que com o passar do tempo só a prejudicava. Apesar de tal decadência ninguém se ousava aproximar, e eu cobardemente mantendo minha ética, permanecia pregado aquele trépido chão. Quanto mais o relógio andava, mais eu previa a sua sina, de certeza que acabaria a viajar no maravilhoso mundo da merda, como tantas outras que foram rejeitadas. Um rasgo de esperança era tudo o que pedia, mas não sabia o seu nome, e a sua origem era para mim totalmente desconhecida. Foi então que enchi o peito de coragem e dirigi-me a ela. Era tarde de mais, já nada podia fazer, morria perante os meus olhos, e de todos os outros que ousaram tocar-lhe e que o não fizeram. PORQUÊ? questiono-me novamente. Que razão terá levado à sua morte?! Ah, já sei! Não, não sei... Sei sim que nem uma lágrima, nem uma palavra, nem um olhar restou por ela, e que hoje já não sou o que sou.

Sábado, Março 07, 2009

 

“Lixo pó chão”

“Lixo para o chão é como pedras de sal espetadas no corpo doente do planeta”

Uma folha de papel no chão e ninguém a apanha. É só mais uma página de jornal ou um folheto que alguém há-de apanhar mas eu não que tenho pressa. Diz-me o Pedro indignadíssimo que entrou no metro e estava todo um outro Metro espalhado no chão. O que o deixou mais irritado? Aquilo que as pessoas fizeram: pisaram, pontapearam, leram pedaços mas só o Pedro “confuciano” pegou e deitou no lixo. Não colocou no papelão e o coração ainda se partiu mais. Confuciano porquê? Porque Confúcio dizia que se “cada um de nós limpar a frente da casa, temos sempre a rua limpa”. Há meses (diria até anos) que não atiro lixo para o chão e quando vejo algum bandido a fazê-lo só me apetece partir para a violência. Bandido não, animal. Animal também não, porque muitos animais são mais limpos, pulha mesmo. Vinha hoje no comboio e um quarentão até com aspecto de pessoa lia o Metro. Descobriu um folheto no meio do jornal que não lhe interessava, qual Mata Hari, 007 ou samurai que praticam a arte do disfarce, deixa cair o folheto com 99 espectadores dos 100 da carruagem (o outro era cego e desconfio, sem maldade, que ouviu a folha cair no chão, mas como não perguntei não quero avançar com falso testemunho). Siderei-o com os meus olhos penetrantes – Super Anti-Lixo em Acção! Três segundos bastaram para, nesta fase, o animal o apanhar e mais dois para o voltar a atirar para o chão com um caixote do lixo a menos de um metro. Nem dois olhares arrasadores surtiram efeito. Indaguei, talvez um murro no meio dos cornos chegue lá (passo-me, a sério!). Outro episódio: 2ª circular, trânsito paradíssimo, pessoal a bufar por todo o lado, enfim, um típico dia. Indivíduo à minha frente começa a…tirar macacos do nariz? Beber um iogurte? Pintar a cara? Falar ao telemóvel? Ler? Adormecer? Apitar freneticamente? Deixar o pisca com sinal de quer ultrapassar? Esgotadas as opções tradicionais, vejo o indivíduo a largar, não um, não dois mas três maços de tabaco para o chão. Nem precisei do Carlos Cruz para me dar dicas, sem dúvida que tínhamos aqui um pulha ao cubo. Só me apeteceu atravessar o carro à frente e fazê-lo ir apanhar os maços com a boca. Meus amigos, já dizia a minha avó: fazes o mesmo em casa? Então não faças na casa dos outros! Vamos lá a ver o que deitam para o chão e da próxima vez que o fizerem vejam se não estou por perto, pois arriscam-se (ou não!)…be afraid, be very afraid…um grande abraço Peter, pela lição de Confúcio.


Escrito algures antes do filme de Al Gore

Sábado, Fevereiro 07, 2009

 

Esquizo

“Quando a voz interna se ‘externa’, all crazyness breaks loose”

Não faz sentido. o quê? O sentido da vida. Porquê? Então, lutas para nascer, vives a lutar e morres “enlutado”. Não achas que estás a exagerar? Exagerar numa realidade que me leva horas como segundos, e me dá quatro para logo me tirar oito, sem sequer pedir desculpa! Tens que deixar de beber. Já não bebo álcool há meses, agora só os lábios dela. E bêbado da mente? Nem as garrafas do bar da vodka juntas e consumidas numa noite te levariam pelo limbo em que viajo. Estás assim tão mal? O escuro que vês lá fora é o frio que habita em mim. E porque é que não vestes um casaco? Engraçadinho, como se um casaco me bastasse. Preciso de um casaco de pensamentos, que substitua este que está mais roto que tu. Ofendes-me? Não, constato apenas. Largas esse pessimismo ou quê? Ou quê e pede aos outros 11 milhões novecentos e noventa e nove o mesmo que pode ser que assim mude. Continuas intratável portanto. Não, continuo tratável mas com pouca fé, enfim. Enfim ou no inicio? Trocas mas não ganhas um sorriso por isso, não é o fim mas a inércia do meio. Mas não vives bem rodeado? O físico não é o mental e o meio não é o fim, é um meio fim. Viraste filósofo? Não menos que tu. Queres que me vá embora, é? Não fica e cala-te que temos que dormir. Boa noite, João…boa noite, João.

Escrito algures em 2004

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

 

Despedirmo-nos de alguém

“A dor que devia ser comprada ao metro”

Quanto custa despedir-me de alguém, Sôr. Merceeiro? Um grupo de amigos vai-me deixar e preciso de saber. Era tão bom, à falta de adjectivo mais nobre, pagar com dinheiro este e todos os “adeus”. Imaginemos um corredor de supermercado com diferentes despedidas: com lágrimas, sem lágrimas mas com brilho nos olhos, com um forte abraço, com sexo intenso, com extrema dor, enfim uma panóplia tão grande como os corredores de pensos higiénicos. Agora imaginemos esse corredor em diferentes supermercados. No LIDL, as diferentes versões de despedida, completamente sintéticas e com uma durabilidade tão grande como a primeira vez dos homens. No Jumbo ou Continente, as mesmas despedidas mas mais caras e com uma oferta tão grande que só de ver e ter que escolher dá vontade de chorar. E no El Corte Inglés? Ainda as mesmas despedidas do LIDL mas numa caixa pomposa, com um nome pomposo e um preço nada pomposo, para aí 50 vezes mais caro. Aqui há depois as despedidas vintage na loja gourmet que nos são apresentadas por um especialista que as demonstra em tempo real. Claro está que as senhoras (vá está bem, os senhores também) com mais idade, querem sempre experimentar as despedidas com sexo intenso (ainda que não comprem). O ideal, e digam-me se não concordam, era ser o merceeiro lá do bairro me as vender. Ele lembra-se de quando o meu pai namorava a minha mãe à janela e levou com balde de urina (para não dizer mijo e assim ferir susceptibilidades) da patroa, do nascimento dos meus 11 irmãos e dos seus filhos, do meu primeiro e único maço de tabaco e caixa de 24 preservativos (ainda hoje os estou a gastar), da primeira namorada, da segunda, da quinquagésima oitava (ok, já estou a inventar), da “charranca” velha com que eu andava em 1998 e a mesma com que ando hoje, enfim, só não se lembra quando o filho apanhou uma tão grande que teve que ir preso por um cinto ao nosso amigo Balelas na mota para o hospital em coma alcoólico (desconfio que saiba, mas não arrisco a perguntar, pois sabe de mais sobre mim). Era mesmo bom (já pareço a Floribela, com estes bons) pois o Sr. Jaquim conhece-me como ninguém e ele sabe a dor indicada para mim naquele preciso momento (ainda que por vezes acho estranho que me queira sempre vender a James Martin 20 anos que lá tem e custa 100€). Infelizmente não posso comprar a minha despedida de ti ou de ti ou ainda de ti nem no merceeiro, LIDL, Jumbo, El Corte Inglés ou no IKEA (e eles aqui até inventam tudo!). Assim fica o repto para aqueles cientistas que investigam as asas da minhoca de Balazares de Cima que nascem com uma deficiência congénita oriunda da minhoca frufru de Namibe, bora lá inventar despedidas por medida!

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

 

ALEGRIA

Ingredientes:
100g de alegria
1 casca de felicidade
150g de divertimento
5 dl de paixão
50g de amor
4 suculentos beijos
amizade em pó (para decorar)

Preparação:
1. Coza a alegria durante 4 minutos, temperada com uma pitada de tristeza.
2. Ferva a paixão com a casca de felicidade e junte o divertimento. Junte a alegria a este preparado e deixe cozer lentamente, mexendo sempre.
3. Já fora do lume, junte o amor e os suculentos beijos. Leve novamente ao lume, mexendo até que os beijos atinjam o ponto de rebuçado.
4. Disponha num rede brasileira (ou outro) e enfeite com amizade.

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